“Com base na declaração de Bakthin, pode-se afirmar que ler não é unicamente decodificar os símbolos gráficos, é também interpretar o mundo em que vivemos”. (Patrícia F. Bianchini).



segunda-feira, 22 de maio de 2017

Entrevista com Ferreira Gullar


Publicado originalmente no site da Revista Ideias, em 12 de janeiro de 2017 

Entrevista - Ferreira Gullar.

Por Paulo Polzonoff Jr. 

O que o leitor tem em mãos parece uma entrevista, mas é um embate. Desde que saí da casa do poeta Ferreira Gullar, em Copacabana, a imagem que tenho de nosso diálogo é a de uma luta de esgrima. Ambos tínhamos espadas em riste, mas ambos estávamos protegidos por uma roupa de branca amabilidade. Não nos ferimos, felizmente, e nem era esta a intenção. Com um sorriso triste no rosto eu vi Ferreira Gullar fechar a porta de seu apartamento. Eu era um descrente.

Sim. Apesar da apregoada falta de religiosidade do poeta, reafirmada nesta entrevista, o descrente ali não era outro senão eu. Gullar se apegava à literatura e fazia dela algo divino e transcendente. Havia complacência em sua voz. E suas reflexões eram as de quem viu muita água correr por debaixo da ponte e por isso mesmo sabe que é inútil se digladiar com palavras. Do outro lado, eu tinha outras coisas nas quais me agarrar. Talvez por isso visse com tanta desconfiança algo tão mundano quanto a literatura.

Na minha mão de repórter, uma lista de perguntas, todas orientadas segundo a visão de que o poema vai mal. Uma a uma, contudo, as perguntas foram perdendo o sentido. Porque diante de mim havia um homem de fé inabalável na capacidade humana de inventar a si mesmo. Ainda que visse aqui e ali problemas, como a tendência do nosso tempo de desprezar a fantasia, Ferreira Gullar pareceu muito seguro de que a beleza não teria fim. Só me restou mesmo rir amarelo. E concordar com a nobre fé alheia.

Aos 75 anos, com seus cabelos brancos escorridos, sua fala cheia de gestos e sua voz agradável, Ferreira Gullar parece um menino, tamanha sua empolgação. Seu riso é desconcertante e acaba por abalar as convicções pessimistas de qualquer um. Pelo menos abalou as minhas parcas certezas. E, de algum modo, apazigou meu coração. Pena que a experiência reveladora tenha durado tão pouco tempo. É que as raízes da descrença são profundas. E, cá para nós, seriam necessários cem mil profetas para que eu acreditasse como acredita o poeta que a literatura brasileira tem futuro.

Confesso que, em alguns momentos, fiquei até com vergonha. Deve ser a mesma vergonha que sente um ateu em frente a um padre. Baixei os olhos e aposto que enrubesci. Fui riscando perguntas que, para mim, haviam perdido o sentido. Queria especialmente saber de Gullar se ele achava que faltava aos poetas contemporâneos a mesma autocrítica que ele diz ter tido com relação ao movimento concretista. Mas tive a impressão de que o problema, na verdade, era outro: sobrava no entrevistador a crítica.

Gullar me pareceu inocente, sem ser ingênuo. Ou seria o contrário? Na entrevista a seguir, ele fala sobre o momento em que se descobriu poeta. Um momento que, ao que parece, perdura na alma do autor do “Poema Sujo”. O poeta ainda se revelou consciente de sua grandeza, posição sobre a qual eu nutro sentimentos ambíguos. Fez críticas ao hermetismo da poesia contemporânea e não citou nomes para elogiar o que acha bom.

Descendo por aquele elevador antigo, num prédio de pé-direito altíssimo numa rua modesta de Copacabana, envelheci uns bons anos. Caí na rua com rugas fundas no rosto cansado. Compreendi, pelas palavras do poeta, que, ao inventar a mim mesmo, pelo exercício cotidiano do espanto, acabo por fazer surgir de tal alquimia a Beleza. Ainda que eu insista em ver algum defeito no último decassílabo.

Com vocês, a exuberância de Ferreira Gullar:*

Et Cetera: Ando pensando muito sobre o que leva uma pessoa a ser poeta. Por isso, gostaria de começar a entrevista com a sua história. O senhor se lembra do momento em que a poesia surgiu na sua vida?
Ferreira Gullar: Lembro. Há dois momentos. O primeiro foi meu interesse inocente por poesia e, em seguida, por escrever poesia. Foi no colégio onde eu estudava, no jornalzinho do colégio. Li um poema que hoje eu vejo que era muito ruim, mas este poema ruim me motivou a fazer poesia. Tanto que no meu último livro tem um momento em que falo do mau poema que também tem sua razão de ser. Depois fiz poemas para a namorada…

Uma motivação universal…
É universal. Esta foi a primeira etapa. Em seguida já pretendi fazer poesia com métricas e sonetos – que era o que estava em vigor no Maranhão naquela época. Eu costumo dizer que nasci em Macondo, porque isso tudo se passa por volta de 1945 ou 46 e o modernismo ainda não havia chegado lá.

Neste sentido, o senhor seguiu um caminho tradicional, fazendo métrica para depois quebrar estas regras.
Mas para mim, na época, a poesia que existia era aquela. Eu não conhecia poesia moderna. Continuando, esta etapa inicial vai até o momento em que tomei consciência do que era a poesia. Foi num sebo em São Luís. Comprei um livro, acho que sobre princípios de filosofia, e um de contos do Hoffman. Quando peguei aqueles livros todos encardidos, cheirando a mofo, aquilo me pareceu uma coisa morta. Participando mais da morte do que da vida. Na hora, achei que a literatura se confundia com aquelas páginas cheias de mofo e fungo. Então me perguntei qual o sentido de fazer literatura, se era para terminar num sebo, nas páginas de um livro cheio de fungo. E esta foi a pergunta fundamental. Ao fazer esta pergunta, eu respondi a mim mesmo que só havia sentido escrever se a poesia mudasse a vida. E aí fui reler os versos que estavam na gaveta da minha escrivaninha e comecei a rasgá-los, porque aqueles poemas não mudavam nada. Até que parei em um. Não que ele mudasse algo, mas é que eu não queria ficar sem nada (risos). O que revela um pouco de mim, uma característica minha que é gostar de mim mesmo, ser complacente comigo em certos casos, não ter raiva de mim. Mas foi a partir desta resposta que começou uma segunda etapa, de compromisso verdadeiro com a poesia.

Esta pergunta juvenil ainda o norteia?
Eu respondi à pergunta e a resposta continua valendo.

O senhor nunca refez esta pergunta e se questionou sobre a validade da resposta?
Num momento ou outro a gente se pergunta. Principalmente nos momentos de dificuldade da vida, de coisas pesadas. Mas a resposta é esta porque não há outra resposta para mim. A outra resposta seria Deus, no qual eu não acredito.

Eu percebi que é quase uma obsessão de quem o entrevista perguntar sobre a sua religiosidade. Não fugindo a esta “tradição”, como anda a sua religiosidade agora?
Eu sou agnóstico. Acho que o mundo é uma coisa inexplicável. E Deus, a mais extraordinária invenção do ser humano, é a resposta para todas as perguntas sem respostas. Como eu não acredito em Deus, não tenho estas respostas. Tenho de lutar diariamente com este problema do grande mistério da vida. Minha reflexão atual sobre isso é que a vida realmente não tem sentido, mas cabe a nós atribuirmos sentido à vida. O homem, desde que ele existe, responde às perguntas sem resposta com Deus. Não é à toa que, depois de tantos anos de materialismo, a religião ainda continua poderosa. Além de dar respostas, a religião é algo muito importante.

É muito difícil ser agnóstico e ateu, né? Eu já tentei e não consegui.
Eu já inventei assim. Até porque na minha família não havia questões religiosas. Minha mãe e meu pai se diziam católicos, mas não havia sequer santos na casa. Ninguém rezava, ninguém ia à missa. Fui batizado, mas não fiz primeira comunhão nem nada. Esta ausência de religiosidade, de fé, também excluiu o conflito. Sou agnóstico, mas não tenho nenhum problema com a religião. Não tenho dificuldade de aceitar a importância da religião para o ser humano. Minha relação com a religião é muito objetiva. Eu sei que ela é importante e acho que eu escolhi o pior lado, que é aquele de achar que eu vou morrer e acabar para sempre. E não tenho nada em que me agarrar.

Quais as diferenças, na sua opinião, sobre o que significa ser poeta na sua geração e hoje em dia? A sua geração tinha motivações políticas (alguns) e preocupações com a forma. Talvez havia motivações metafísicas. Hoje em dia…
Uma coisa que eu vejo na poesia jovem é um certo hermetismo que, evidentemente, não me agrada. Eu acho que a poesia não deve ser superficial, mas também não deve ser hermética. É claro que quem quiser pode fazer. Estou dando a minha opinião. Porque, a não ser que a pessoa tenha uma necessidade muito profunda de comunicar uma realidade indecifrável que ele não consiga expressar de outra maneira… Mas normalmente eu acho que a função do poeta é ir ao mistério e trazê-lo à tona para as pessoas. Se não, que sentido tem? Se eu tenho a compreensão da complexidade e não transmito a complexidade, isto é inútil. Eu sou a favor da complexidade e não sou a favor da ideia de que você tenha de ser claro, mas se é para ser hermético, tem que ser como Mallarmé: ele era hermético, mas era profundo, denso. E tem que fazer um esforço para traduzir isto em palavras. Agora, o hermetismo como uma fórmula não pode.

Uma ideia recorrente é de que o desregramento da poesia durante o século XX acabou por vulgarizá-la.
Não é verdade. O verso livre levou o poeta a buscar uma disciplina e uma exigência até maior do que as formas clássicas. Os grandes poetas do passado que escreviam em versos metrificados tinham exigências também; mas o fato de ser rimado e metrificado, por ser uma técnica de fácil aprendizado, muitas vezes virava um automatismo.

O senhor mesmo mencionou que falava em decassílabos.
(Risos). É. Quando eu era jovem, integrado naquele tipo de linguagem, às vezes eu falava em decassílabos. Sem querer. Quando dava por mim, saía um verso. Perfeito. Mas a verdade é que, com o verso livre, no meu caso – que rompi com uma tradição de poesia metrificada – me perguntei como transformar a linguagem que era mera prosa em poema. Foi um desafio para mim. Um desafio colocado para sempre. No meu caso, em vez de eu ter uma disciplina externa, a da métrica, tenho uma disciplina interior. O poeta do verso livre é como o Romário ou Zico: a bola vem e ele tem de estar preparado. É uma disciplina da mente e do corpo que está entranhada. E esta disciplina vai se exercer a todo momento, porque a forma do poema é imprevisível. Ou você cai numa liberalidade, que é esta a que você se referiu, ou você tem uma disciplina interna.

O senhor é um defensor da individualidade na criação artística. Hoje em dia, no entanto, eu percebo que muitos escritores e poetas andam em bando, como escoteiros…
(Risos) Eu não acho mau. Vamos distinguir as coisas. O pintor Siron Franco, quando está no seu ateliê, faz o seu trabalho sozinho. Isto é arte individual. E existem artes que são coletivas como o cinema: um escreve o roteiro, outro dirige, há o intérprete, o montador. Mas existe um criador inicial, o cara que bolou o filme. Já a poesia, como a pintura, é extremamente individual. O que não significa que não seja social. Porque cada um de nós, na sua individualidade, é parte do momento histórico que está vivendo, da família, da comunidade, dos amigos. Este indivíduo é coletivo.

Conversando com um poeta da sua geração, ele me chamou a atenção para uma espécie de papado que existe na poesia brasileira. É a tradição de passar o cetro. Manuel Bandeira passou para Drummond, que passou para João Cabral, que teria passado para o senhor.
Não diria que é papado mas concordo em que isso de se eleger um poeta como se fosse o único do país não está certo. Sem dúvida, Drummond, Bandeira e João Cabral são grandes poetas mas havia outros, contemporâneos seus, que tinham grande qualidade dos quais quase não se falava. O problema, no entanto, é que isso ocorre não se sabe como e à revelia dos eleitos, porque certamente não foram aqueles poetas que se arvoraram em Papas.

Li uma entrevista sua na qual o senhor diz que só escreve quando tem algo a dizer. Eu queria que o senhor falasse um pouco da importância do tempo para o poeta. Eu vejo tanta gente escrevendo tanto, falando tanto…
Na poesia eu não posso fazer como numa crônica que tenho data para entregar. Na poesia eu não decido quando. Porque o motor gerador da poesia está fora de mim, fora do meu controle. De repente a poesia vem. É uma coisa que Manuel Bandeira dizia: o poema escolhe o momento de nascer. É verdade, escolhe. Acho que fazer poesia é aprender a fazer poesia, permanentemente. E quando você sabe demais tem que desaprender. Porque a poesia é o erro e a superação do erro. Não se pode estar seguro. Atualmente escrevo com mais dificuldade do que eu escrevia antes. Por exemplo, eu escrevi um poema chamado “Desordem”. Depois eu fui reler este poema, na forma que parecia final. Quando o estava relendo, começaram a surgir na minha cabeça ideias que não estavam expressas nele, mas que diziam respeito a ele. Aí eu escrevi uma espécie de adendo ao poema. Isto nasceu de modo imprevisível, da leitura do próprio poema. Certa noite, saía da casa da Claudia [Ahimsa, companheira do poeta]. E quando atravesso o jardim havia ali um jasmineiro lançando perfume no ar. Fiquei louco. Arranquei umas flores do jasmineiro e saí cheirando aquilo, aspirando aquilo que senti como um veneno. É que o cheiro do jasmim parece suave de longe. Quando você aspira ele se torna selvagem. Aquilo me envenenou. Entrei no meu carro doidão porque havia tomado um porre de jasmim e vim embora para casa. Aí, quando cheguei em casa, dormi e no dia seguinte escrevi um poema sobre aquele barato. E aquele jasmineiro está lá há anos e nunca me provocara tal sensação e de repente naquela noite provocou. Ou seja, é uma coisa que não tem controle. Eu jamais escreverei um poema pela simples ideia de que faz tempo que não escrevo um poema. E acho que ninguém escreve assim. Se escrever, não dá certo. Não estou falando de inspiração, mas é um acontecimento de caráter psicológico ou existencial que provoca um relâmpago, um curto-circuito. Na verdade, eu vou te dizer uma coisa: você não escreve a verdade do jasmim. Você inventa uma verdade para o jasmim. Porque a vida é uma invenção. O homem inventa a si mesmo permanentemente. E inventa a vida dele. Então o poema não é o registro da experiência do poeta. Não. A experiência da vida provoca uma invenção. E você cria um artefato que passa a ser a expressão verbal da experiência mas que não é ela.

Gostaria que o senhor me contasse aquela história do extintor de incêndio, que virou um paradigma para os críticos da arte contemporânea.
Eu estava visitando um museu em Paris. Numa das salas, havia uma exposição de arte contemporânea, objetos, instalações, aquelas coisas. Em certo momento, uma senhora se defrontou com um extintor na parede e começou a discutir com o marido se era obra ou não. E eu próprio não sabia dizer. Foi isso que aconteceu. De fato eu sou bastante crítico a este tipo de arte. Não acho que seja uma embromação ou uma fraude, nada disso. Acho que se trata de um fenômeno decorrente de um processo histórico e cultural. É uma coisa bastante complexa. E que tem essencialmente a ver com a ruptura da linguagem artística e com uma mudança no mundo em relação à desvalorização da fantasia e do imaginário em função de uma arte pretensamente objetiva, como a de Mondrian ou Duchamp. Uma arte sem ilusão, sem fantasia. Mas eu sou a favor da fantasia… Este processo conduziu à desintegração da linguagem. E era inevitável, porque se eu decidir usar a minha linguagem verbal para não dizer as coisas mas somente para brincar com as relações entre as palavras, eu vou desintegrar a linguagem no final. Vira o caos. E foi isso o que aconteceu com a arte dita contemporânea. Eu costumo brincar, de modo sarcástico, que esta arte é a Caninha 51, porque como ela não tem linguagem, é só uma boa ideia. Outro dia eu fui a uma loja especializada em cabides. Só tinha cabides. Daí eu pensei: “Vou fazer uma instalação com esses cabides”. Imagine cinco mil cabides de formas e cores diferentes formando uma composição. É uma boa ideia. É muito diferente de como nasceu “Guernica” ou “As Meninas”, de Velázquez. O interessante é que é um desvio que só perdurou nas artes plásticas. Nos outros campos da atividade artística, esta ruptura não sobreviveu. Na literatura, chegou até à loucura de “Finnegans Wake”. Mas você já imaginou se a literatura tivesse seguido o caminho de “Finnegans Wake”?

Acabava.
Sim. Você não teria Borges nem Faulkner nem Guimarães Rosa. Nem Graciliano, García Marquez nem… toda a literatura moderna pós-anos 30. Aquilo foi um experiência específica do Joyce, mas ele próprio disse que, depois do “Finnegans Wake” a próxima obra dele seria de uma claridade absoluta. É claro. Porque depois daquilo não havia nada. Era o fim do túnel. Só tinha rocha. Outro dia eu vi uma entrevista da Camille Paglia dizendo para os artistas de hoje que foram contemporâneos dela, iconoclastas e rebeldes na juventude: “Pessoal, nós estamos no ano 2001. Já faz quarenta anos desta brincadeira. Chega. Vamos fazer obra para perdurar? Vamos buscar a beleza de novo? Vamos restituir a fantasia? A arte.”

Por fim, eu gostaria de saber como é ser uma celebridade literária no Brasil. Isso o incomoda?
Eu recebo muitos livros de autores novos e não tenho como ler. Eu entendo que as pessoas me mandem, só que eu não tenho tempo. Meu barato é trabalhar a minha literatura e ler os livros que eu quero ler. Sinto até um certo remorso por não dar tanta atenção quando deveria, mas eu não posso. De vez em quando, quando me deparo com algo que tem qualidade, até escrevo para o poeta. Mas isso é raro. A maioria não é coisa legal. Agora, na rua, as pessoas me reconhecem pelo meu cabelo. Tanto que comecei a andar com um boné para ter sossego. Porque às vezes as pessoas abordam para falar uma banalidade, uma coisa à toa. É dispensável. Legal mesmo foi um bêbado aqui em Copacabana, que estava chutando uns carros, doidão. Eu saí para comprar um remédio e quando ele me viu, gritou: “Ferreira Gullar, famoso e eu não sei quem é!”.

* Esta entrevista originalmente foi concedida a Paulo Polzonoff Jr, em 2005, para a revista Et Cetera, número 6.

Texto e imagem reproduzidos do site: revistaideias.com.br

quarta-feira, 17 de maio de 2017

Fernando Sabino - entrevistado por Clarice Lispector






Fernando Sabino - entrevistado por Clarice Lispector.

“Gostaria de morrer em nome de alguma coisa, mas não creio que mereça tanto.”

Esta entrevista foi feita antes de Fernando Sabino declarar que a literatura morreu.

Clarice Lispector – Fernando, por que é que você escreve? Eu não sei por que eu escrevo, de modo que o que você disser talvez sirva para mim.
Fernando Sabino – Há muito tempo que não escrevo. A última vez foi ali por volta de 1956, 1957. Escrevia por necessidade de me exprimir. Desde então tenho me utilizado da palavra escrita como atividade profissional, por necessidade de ganhar a vida. Mas não chamo a isso de escrever, como ato de criação artística.

Clarice Lispector – Como é que começa em você a criação, por uma palavra, uma ideia? É sempre deliberado o seu ato criador? Ou você de repente se vê escrevendo? Comigo é uma mistura. É claro que tenho o ato deliberador, mas precedido por uma coisa qualquer que não é de modo algum deliberada.
Fernando Sabino – A criação nunca começava por uma palavra ou por uma ideia. Era uma espécie de sentimento em mim que partia em busca dessa palavra ou dessa ideia. Qualquer palavra, qualquer ideia. Hoje o sentimento ainda existe, mas tem-se dispensado de se exprimir através de palavras ou ideias – de certa maneira me contento com o próprio sentimento, que procura fora de mim alguma forma de expressão já existente com que se identificar. A música, por exemplo – especialmente a de Thelonious Monk.

Clarice Lispector – Há quanto tempo você escreve crônicas? Falta-lhe assunto às vezes? A mim, no Jornal do Brasil, por enquanto ainda não.
Fernando Sabino – Escrevo crônica desde 1947. Sempre falta assunto – é penoso ter de inventar. Procuro suprir o jornal ou a revista que me pagaria com a matéria escrita que corresponda ao que esperam de mim, ou seja, agradar o leitor. Aceito alegremente a tarefa, como um móvel.

Clarice Lispector – Que é que você acha do protesto dos jovens no mundo inteiro? Que estão eles querendo, na sua opinião?
Fernando Sabino – Na minha opinião estão querendo o mesmo que eu queria quando era jovem – e continuo querendo: repudiar um mundo errado que os mais velhos lhes querem deixar como herança. Estão querendo acertá-lo e não sabem como – mas nós muito menos.

Clarice Lispector – Que é que você acha de Marcuse?
Fernando Sabino – Só li de Marcuse algumas páginas da tradução de um livro seu, o suficiente para
ver que ele parece ignorar, na proposição de suas ideias com relação ao mundo de hoje, um dado elementar: o de que o mundo de hoje tem muito mais gente que o mundo do princípio do século. E quanto a isso, ele não apresenta nenhuma outra solução. Nem mesmo a pílula.

Clarice Lispector – Por que você, Fernando, com o grande talento que tem, só escreveu um romance? Teve tanto sucesso que isso deveria incentivar você a produzir mais. Ou o sucesso atrapalhou você? A mim quase que faz mal: encarei o sucesso como uma invasão.
Fernando Sabino – O sucesso sempre atrapalha: neutraliza a nossa necessidade de se afirmar. No meu caso, entretanto, não foi o sucesso do meu romance que me atrapalhou, mas a necessidade, a que não soube resistir, de fazer da palavra escrita um ofício do qual tiro o meu sustento. Deixando de escrever, e indo buscar de dentro do mais obscuro anonimato um meio de expressão, é possível até que eu começasse realmente a escrever. Não desisti: lhe asseguro que ainda pretendo começar.

Clarice Lispector – Fernando, qual o seu processo de trabalho, você se inspira como? Ou se trata de uma disciplina?
Fernando Sabino – Há muito tempo que não me dou a esse luxo: o de inspirar-me. Contar com algum tema, alguma solicitação, algum estímulo que signifique uma verdadeira inspiração. E a verdadeira inspiração é aquela que nos impele a escrever sobre o que não sabemos, justamente para ficar sabendo.

Clarice Lispector – Conte-me um pouco sobre a Editora Sabiá.
Fernando Sabino – A Editora Sabiá tem grandes planos para este ano. Vamos prosseguir na nossa série de antologias poéticas bilíngues, iniciada com Pablo Neruda, publicando uma de Garcia Lorca. E entre as nacionais, será lançada em breve a de Jorge de Lima. Vamos iniciar também uma série de traduções de grandes romances modernos, o primeiro dos quais será Cem anos de solidão, de Gabriel García Márquez – um verdadeiro monumento da literatura moderna, best-seller internacional, considerado o livro mais importante da língua espanhola desde Don Quixote. Além disso, Rubem Braga e eu não perderemos de vista o objetivo pessoal que nos levou a fundar a Editora Sabiá: o de publicar nossos próprios livros em melhores condições e, por extensão, os dos nossos amigos.

Clarice Lispector – Em que jovem de hoje você tem esperança como futuro grande escritor?
Fernando Sabino – Não tenho acompanhado como devia a atividade de nossos jovens escritores – passei algum tempo fora do Brasil e ainda não retomei o contato como gostaria. Mas sei que há diversos jovens escrevendo o que há de melhor por esse Brasil. Os de Minas, por exemplo, ocasionalmente me têm dado prova disso, através do excelente suplemento literário do Minas Gerais, dirigido por Murilo Rubião. Já realizados como escritores da nova geração, eu poderia citar, entre outros, Oswaldo França Júnior e José J. Veiga, que me parecem admiráveis. Mas no Brasil, mal um escritor entrou na casa dos trinta, já é considerado velho...

Clarice Lispector – Qual foi, Fernando, a sua maior decepção na vida?
Fernando Sabino – Eu poderia responder repetindo Léon Bloy: a de não ter sido um santo. Mas modestamente, entretanto, prefiro dizer que foi a de não me ter ainda realizado como romancista.

Clarice Lispector – Quando é que você se alegra?
Fernando Sabino – Sou sempre alegre – daquela alegria interior dos fronteiriços da debilidade mental e que, portanto, têm ainda uma oportunidade de salvação.

Clarice Lispector – O que é que você desejaria para o Brasil?
Fernando Sabino – Desejaria que o Brasil conseguisse realizar nada menos que o grande sonho da humanidade: o de atender à necessidade de justiça social para todos sem prejuízo dos direitos fundamentais de cada um. Uma utopia, que no entanto deve ser o mínimo de ideal a ser sustentado por um homem digno desse nome.

Clarice Lispector – Como é que você resumiria o conteúdo da palavra amor?
Fernando Sabino – Amor é dádiva, renúncia de si mesmo na aceitação do outro. Amar o próximo como a si mesmo e a Deus sobre todas as coisas.

Clarice Lispector – Quais são os seus projetos como romancista?
Fernando Sabino – Não sei. Só vou ficar sabendo depois que escrever um novo romance. É preciso que eu me convença de que um romance não é mais do que um romance. Tenho de esquecer o pouco que aprendi e sair tateando às cegas até encontrar o botão de luz.

Clarice Lispector – Você acha que a nossa geração falhou? Eu acho que sim. Acho que nos faltou dar o corajoso passo no escuro. Nós não tínhamos desculpa, porque tínhamos talento e vocação.
Fernando Sabino – Não sei se nossa geração falhou. Nunca me senti, como escritor, como parte de uma geração. (Nem eu, pensei.) Sempre me senti sozinho e este talvez tenha sido o meu erro. Quis aprender sozinho e perdi a inocência. O artista é um inocente. Era preciso reaprender a olhar tudo como se fosse pela primeira vez. Eu olhei como se fosse a última. Em tempo: o romance que não consegui escrever se chamaria O salto no escuro. Estou dispensado até deste título, pois já saiu outro com o mesmo nome.

Clarice Lispector – Fernando, você tem medo antes e durante o ato criador? Eu tenho: acho-o grande demais para mim. E cada novo livro meu é tão hesitante e assustado como um primeiro livro. Talvez isso aconteça com você, e seja o que está atrapalhando a formação de seu novo romance. Estou ficando impaciente à espera de um romance seu.
Fernando Sabino – O que atrapalha a criação de um novo romance é a presunção de que somos capazes de criar. Diante da grandiosidade da tarefa, descubro que não sou coisa nenhuma. Era preciso partir da consciência de minha própria insignificância, e reconhecer com humildade que a tarefa nem grandiosa é, mas apenas um ato de louvor a Deus na medida das minhas forças.

Clarice Lispector – Você é profundamente católico ou apenas superficialmente?
Fernando Sabino – O catolicismo é uma herança de minha formação familiar que, graças a Deus, não abandonei. Deus não abandona aos que não o abandonam. Mas isso é assunto para conversa só entre nós dois.

Clarice Lispector – Qual o seu santo preferido?
Fernando Sabino – Não tenho preferência. Acho os santos uns chatos, pela inveja que me despertam, me fazendo ainda mais pecador.

Clarice Lispector – Você, que morou na Inglaterra como adido cultural nosso, notou lá algum movimento novo na literatura? Eu acho a literatura do mundo muito parada. Não há quem me satisfaça numa leitura. E você?
Fernando Sabino – Atualmente eu me interesso mais pelo depoimento pessoal, pelo documentário jornalístico – que talvez sejam novas formas de literatura.

Clarice Lispector – Como é que você encara o problema da morte?
Fernando Sabino – Deixar este mundo não me faz mais alegre, porque a vida é boa. Mas a morte é o eterno repouso. E eu tenho muita vontade de repousar eternamente. E muita curiosidade. Espero que não doa muito. Gostaria de morrer em nome de alguma coisa. Morrer deliberadamente, e não como alguém que depois do jantar espera que o garçom lhe traga a conta e fica pensando na gorjeta. Fazer da minha morte a justificação da minha vida. Mas não creio que mereça tanto.

FERNANDO SABINO – cronista e romancista, o autor de O encontro marcado e O homem nu foi uma presença marcante na vida literária de Clarice Lispector atuando como uma espécie de consultor na publicação de seus livros. Foi seu editor nas editoras do Autor e Sabiá. Manteve uma extensa correspondência com Clarice quando esta residiu no exterior, publicada em Cartas perto do coração.
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Fonte:
- LISPECTOR, Clarice. Clarice Lispector entrevistas. Rio de Janeiro: Rocco, 2007.

Texto e imagens reproduzidos do site: elfikurten.com.br

sábado, 13 de maio de 2017

Aracaju Biblioteca Livre estimula a leitura...





Publicado originalmente no site VIP Comunica Conecta, em 24 de abril de 2017

Aracaju Biblioteca Livre estimula a leitura e o desapego
Por José Rivaldo Soares (equipe VIP).


Fomentar e estimular a leitura. Esse é o objetivo do projeto Aracaju Biblioteca Livre, idealizado pela psicóloga Ivna Ariane.  O projeto funciona de modo simples: os interessados podem doar livros ao projeto ou trocar os livros que têm por livros do acervo da iniciativa. Por enquanto, a Aracaju Biblioteca Livre funciona na recepção do consultório de Ivna, no Centro Médico Jardins, sala 1106.

A ideia surgiu a partir de uma questão pessoal bem prática: como sempre gostou de ler, Ivna acabou acumulando muitos livros ao longo da vida. “Comecei a perceber que cada vez eu tinha menos espaço para organizar novos livros. Outra questão, sempre presente, era uma forte inquietação diante do desperdício de ler algo e deixar aquele material incrível ali, parado, sem dar a possibilidade de outras pessoas lerem. Dificilmente, lemos um livro mais de uma vez, exceto os técnicos. Por mais que emprestasse a pessoas próximas, eles voltavam e ficavam na estante, inertes, envelhecendo”, relata.

Ano passado, Ivna separou alguns livros pessoais e colocou na sala de espera do seu consultório e deixou um bilhetinho ao lado explicando que aqueles livros poderiam ser levados se fosse deixado outro no lugar. “Tudo funcionava de maneira bem experimental. Vi que os pacientes adoraram a ideia. Em pouco tempo, já havia trocado vários livros. Inclusive, pude, com as trocas, adquirir livros que não tinha lido e que estavam na minha lista de prioridades para leitura”, explica.

Diante dos benefícios observados, Ivna Ariane pensou em ampliar a ideia, divulgando mais extensivamente tanto nas redes sociais – instagram e whatsapp -, como fazendo parcerias com pessoas que tivessem o interesse em multiplicar o projeto que estimula a leitura e o desepego.

“A ideia é desapegar dos livros usados, já lidos, ou até mesmo de livros que ganhamos e que, por falta de interesse no tema, deixamos de lado, e trocar por outros. Multiplicar a leitura sem multiplicar os livros ao redor. Pensar leve, pensar sustentável. No projeto da Aracaju Biblioteca Livre também aceitamos doações com o objetivo de aumentar o acervo”, explica a idealizadora do projeto.

Ivna relembra que o seu interesse pela leitura começou bem cedo, ainda criança. Com o passar do tempo, esse interesse só aumentou. “Na graduação, as questões relacionadas à Educação sempre despertavam minha atenção e curiosidade e, após a formação, tentei aprofundar meu conhecimento nos assuntos relacionados ao tema”, relata.

Na sua atividade profissional, na sua experiência em sala de aula e no consultório, Ivna percebe a diferença entre indivíduos leitores e não leitores. “Como desenvolver indivíduos livres e conscientes sem o ato de ler? Precisava encontrar uma forma de estar mais ativa nesse processo. Este ano, a ideia aflorou e lentamente está se expandindo. Espero conseguir mostrar a crianças, adolescentes, adultos e idosos a importância da leitura, bem como resgatar esse prazer nos indivíduos que, durante a jornada da vida, se distanciaram do ato de ler. Ações práticas são fundamentais na concretização deste projeto”, comenta.

Como participar

O projeto funciona na sala de espera do consultório de Psicologia de Ivna, localizado no Centro Médico Jardins, sala 1106. “O espaço ainda está improvisado, mas tudo está sendo organizado para melhor atender a todos que desejem doar e trocar seus livros já lidos por novas leituras. Basta trazer um ou mais livros e escolher outro pelo qual tenha interesse em ler. Só não são aceitamos, por enquanto, livros técnicos e escolares”, explica.

Ivna destaca que a pretensão futura é expandir esse projeto de incentivo à leitura a vários espaços. “Promover eventos relacionados ao tema e trabalhar sempre aliando a importância da leitura a uma consciência sustentável. Vale ressaltar que, em qualquer lugar, podemos incentivar a leitura e o custo disto pode ser bem pequeno, se tivermos como base a sustentabilidade”.

Os interessados no projeto, devem ir ao Centro Médico Jardins, sala 1106 e levar um ou mais livros e escolher outro (s) pelos qual (is) tenha interesse em ler. O Centro Médico Jardins está localizado na Avenida Ministro Geraldo Barreto Sobral, 2131, bairro Jardins, prédio vizinho ao Hospital Primavera. Para palestras, eventos e parcerias entrar em contato pelo instagram: @aracajubibliotecalivre, pelo telefone (79) 99956-6754 ou pelo email ivnariane@hotmail.com.

Texto e imagens reproduzidos do site: comunicacaovip.com.br

quarta-feira, 3 de maio de 2017

Liberdade linguística, miscigenação e construção...




Publicado originalmente no site MultiRio, em 19 de março de 2012.

Liberdade linguística, miscigenação e construção carnavalizada do Brasil
Por Márcia Pimentel

Jorge Amado faz parte de uma geração de escritores que se serviu dos caminhos abertos pelos modernistas da Semana de 1922 e inovou o romance brasileiro com uma prosa marcada pela crítica social e linguagem regionalista. Embora a crítica literária identifique o grupo como a geração que inaugurou o romance social no Brasil – muitas vezes chamado de romance nordestino pelo fato de a maioria dos autores ser natural do Nordeste -, não havia entre os escritores o sentido de unidade estética programática que marcou os grupos modernistas da fase anterior. Mas se os nordestinos despontados na década de 1930, ainda que sem unidade estética, inovaram a Literatura Brasileira com seus romances sociais, teria Jorge Amado alguma contribuição específica para as nossas letras?

Para a presidente da Academia Brasileira de Letras (ABL), Ana Maria Machado, a principal inovação de Amado foi levar para as páginas literárias a fala popular do brasileiro e as centenas de personagens marginais, como prostitutas e meninos de rua. “Hoje, isso ficou tão comum que nem se nota o tamanho da revolução que representou quando ele o fez”, destacou a escritora em uma entrevista ao jornal Balaio de Notícias. Durante muito tempo, porém, no meio acadêmico e na crítica literária, prevaleceu um enfoque oposto: o de que a obra amadiana apresentava descaso com os padrões da língua, além de ser antiga e atrasada, por ter um tom picaresco que, supostamente, seria mais adequado ao romantismo indianista do século XIX.

Foi assim que, por exemplo, o inglês David Brookshaw, professor de Estudos Luso-brasileiros da Universidade de Bristol, classificou o livro Jubiabá (1935). O negro Antonio Balduíno, personagem principal do romance, seria, segundo ele, o estereótipo do bom escravo dos tempos coloniais, visão com a qual Eduardo de Assis Duarte, professor da Faculdade de Letras da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), não concorda. Para este, Balduíno, além de ser o primeiro herói negro de perfil épico do romance brasileiro, só é apresentado com inocência, força física e sensualismo extremado, no início da história, para fazer contraponto ao novo homem que surge, no final, com a greve e a consciência de classe.

Em seu artigo Jorge Amado: uma releitura, Ana Maria Machado credita boa parte da má vontade com a obra do escritor baiano aos “feudos portugueses que fixaram raízes nas instituições culturais lusitanas durante o longo período salazarista”, inclusive nos departamentos de Língua Portuguesa de diversas universidades europeias. Esses “feudos” atacavam a “sintaxe duvidosa” e a “frouxidão linguística” do texto amadiano, nada fiel aos cânones linguísticos da academia lusitana. A presidente da ABL, porém, ironiza a má vontade com o escritor baiano, já que a teoria em prol da liberdade linguística era fortemente aplaudida e elogiada pela academia e pela crítica literária, desde os primórdios do Movimento Modernista. “O que Amado fez foi colocar em prática o que os modernistas buscavam sem conseguir até então”, dispara ela.

 Amizades e favores

Para o antropólogo Roberto Da Matta, a principal contribuição de Jorge Amado às letras brasileiras reside nos “temas não oficiais da sociedade brasileira” que ele colocou em pauta nos seus romances da fase pós-Gabriela. Esses temas seriam assentados na teia de elos pessoais e nas capa_dona_flor_legendarelações de favores que atravessam as relações entre semelhantes e opostos, ricos e pobres. “Não se trata mais de uma luta dualística entre oprimidos e opressores, mas de um drama que, não obstante a inclusão da exploração e do poder mais nu e cru, pretende tratar das relações e manifestações deste poder com ele mesmo. E mais, discutir as formas sociais (ou culturais) que fazem esse poder ser obedecido”, avalia Da Matta em seu livro A casa e a rua.

Para tratar do universo fundado nas amizades e nas relações pessoais e de favores, fora da moralidade oficial – com coronéis se relacionando com prostitutas e malandros, com recatadas viúvas acatando conscientemente a convivência com dois maridos etc. –, Jorge Amado utilizou, segundo o antropólogo, a estratégia da carnavalização. Para sustentar essa teoria, Da Matta recorre ao filósofo russo Mikhail Bakhtin, que afirma que as manifestações carnavalescas estão assentadas na liberdade de poder inverter os costumes e a moral do status quo, o que torna possível trocar o sacro pelo profano, o velho pelo novo, a morte pela vida etc. “Carnavalizar é relacionar pessoas, categorias e relações sociais que normalmente estariam soterradas sob o peso da moralidade sustentada pelo Estado”, diz o antropólogo.

É a carnavalização que dá aos heróis da fase pós-Gabriela a característica da vida dupla. É ela que também permite que malandros como Vadinho, de Dona Flor e seus dois maridos, se relacionem com as camadas mais altas e estabelecidas da sociedade, da mesma forma que Tiririca, que pertence aos estratos de cima, se relaciona fortemente com os que estão abaixo através de sua famosa festa anual, realizada para pagar dívida com um orixá. Para Da Matta é essa visão carnavalizada que permite que Amado revele a face oculta e a-histórica da sociedade, para além dos diagnósticos socioeconômicos tradicionais.

Ícone do século XX

Para o professor da UFMG Eduardo de Assis Duarte, Jorge Amado “faz parte de um restrito grupo de escritores que se emaranharam intensamente nas pulsões históricas do século XX”. Em sua visão, a obra amadiana é composta por grandes narrativas que se entrelaçam com a trajetória do socialismo e a história do país e contam a vida do povo numa ótica voltada para a construção da identidade nacional – a Bahia transformada em metonímia do Brasil.

Ele lembra que a postura amadiana vinculada à construção da identidade cultural se transforma com o tempo. O paradigma ideológico da luta de classes passa a ceder cada vez mais espaço para as relações entre homens e mulheres, a miscigenação racial, a tolerância étnica e o hibridismo cultural, numa postulação próxima daquela defendida por Gilberto Freyre. As questões étnicas, aliás, estão presentes desde as primeiras obras de Amado, embora a luta de classes ainda fosse, nessa época, o cerne das questões humanas. Numa entrevista que concedeu a sua tradutora francesa Alice Raillard, Jorge Amado disse, certa vez: “Em Jubiabá, (...) Balduíno compreende que o problema de raça não é a causa, mas sim consequência do problema de classe. (...) Eu realmente fico feliz por Jubiabá mostrar isto e não o caminho estreito e fechado da separação de raças, da negação da nossa realidade e da própria experiência humanista, que é a mistura de raças”.

Até o fim de sua vida, Amado defendeu a bandeira da miscigenação e hibridação cultural. Essa postura lhe rendeu inúmeras críticas da esquerda que, aliás, condenou não só os rumos de sua ficção, mas também sua trajetória política, que flutuou entre o culto a Stalin e a amizade com José Sarney e Antônio Carlos Magalhães. Talvez, a visão carnavalizada da sociedade, analisada por Da Matta, explique o fato de Amado ter feito amigos com trajetórias políticas tão distintas daquelas que pregou até meados dos anos 1950.

Em relação a todas as controvérsias que cercam a figura do escritor baiano, Duarte, em um artigo que escreveu em 2001, dizia esperar que a morte de Jorge Amado, ocorrida naquele ano, não mais obscurecesse o trabalho do artista, nem conduzisse mais o julgamento de sua obra por critérios que extrapolassem seu projeto literário. Mais de dez anos depois, resta-nos saber qual será o tom da academia neste ano de comemoração do centenário de nascimento do escritor que encantou milhões de leitores no Brasil e no mundo.

Texto e imagens reproduzidos do site: multirio.rj.gov.br

Antes de ‘Gabriela’: o romance proletário



Publicado originalmente no site MultiRio, em 19 Março 2012.

Antes de ‘Gabriela’: o romance proletário
Por Márcia Pimentel

Antes e depois de Gabriela, cravo e canela. É assim que os estudiosos da obra de Jorge Amado costumam dividir a produção literária do escritor baiano. A divisão coincide com o momento em que ele abandona a militância do Partido Comunista Brasileiro (PCB), em 1956, ano em que, no mundo inteiro, há uma debandada geral de intelectuais dos quadros do comunismo, por conta da leitura dos crimes de Josef Stalin no 20º Congresso do Partido Comunista Soviético. O romance Gabriela, publicado no Brasil em 1958, é visto como a obra em que ele rompe com os cânones da estética oficial stalinista: o realismo socialista.

A fase amadiana dos romances proletários se inicia em 1933, um ano após sua filiação ao PCB, com a publicação de seu segundo livro, Cacau, no qual narra a ganância e a brutalidade impiedosa dos coronéis do cacau, que faziam fortuna à custa dos miseráveis. Sergipano, personagem principal do romance, passa por uma longa trajetória de pobreza e revolta contra a exploração até terminar como grande herói comunista. Amado parece, dessa forma, alinhar-se com o realismo socialista antes mesmo de este ter-se tornado a estética oficial do partido soviético.

Em sua tese de doutorado sobre Jorge Amado e militância política, Júlia Monnerat Barbosa atenta para o fato de que alguns protagonistas de outros livros publicados depois de Cacau – como Jubiabá (1935) e Capitães da areia (1937) – traçam o mesmo roteiro épico de Sergipano: “infância pobre, períodos de privações, tentativas de superação de uma realidade dura e miserável de forma individual, fracasso, e, finalmente, a percepção de que apenas a via coletiva de organização da classe trabalhadora pode oferecer a libertação, terminando o protagonista como grande líder proletário”.

Efervescência cultural comunista

A fim de promover uma “cultura proletária” e fazer frente à “cultura burguesa”, os partidos comunistas estruturaram, durante os anos 1930, em diversos países, inclusive o Brasil, redes culturais – com jornais, revistas, editoras e entidades – que atraíam intelectuais, jornalistas, artistas, escritores, músicos e estudantes de todo o mundo. Em seu stalin_4_1_legendalivro Descaminhos da revolução brasileira, Ricardo da Gama Rosa Costa avalia o impacto dessa política cultural do PC em nosso país: “A rede cultural do PCB, complementada no intercâmbio com os aparelhos do movimento comunista internacional, funcionava como um lugar cativante e delineador de carreiras culturais. A dimensão internacional de Jorge Amado parece encontrar aqui uma de suas fontes de energia”.

Os esforços culturais do PC vieram acompanhados de direcionamentos estéticos. O realismo socialista foi anunciado como a estética oficial do Zhdanov_2partido para a literatura e as artes em setembro de 1934, durante o I Congresso de Escritores Soviéticos. O anúncio foi feito por Andrei Zdanov, comissário de Cultura indicado por Stalin. Conforme as teses por ele apresentadas, as artes deveriam fazer uma descrição realista da sociedade e enaltecer os heróis proletários. Ainda segundo o discurso proferido pelo comissário, todo escritor deveria ser um “engenheiro de almas”, capaz de moldar mentes socialistas e mobilizar “os trabalhadores e os oprimidos para a luta e aniquilação definitiva da exploração e do jugo da escravidão assalariada”.

Em meio a essa política cultural do PC – que se torna bem mais rígida após o início da Guerra Fria –, Jorge Amado escreve vários livros sob a égide do realismo socialista até o ano de 1954, quando publica a trilogia Os subterrâneos da liberdade, romance que termina com a personagem Marina, militante comunista disciplinada, gritando apoteoticamente: “Viva Luís Carlos Prestes!”. O líder do PCB já havia, aliás, inspirado as letras de Amado em outras ocasiões, como em 1941/42, quando escreveu O cavaleiro da esperança, livro sobre a vida do dirigente comunista brasileiro, que tinha o objetivo de contribuir com a campanha por sua anistia e que, segundo muitos, lançou o escritor baiano para o mundo das estrelas literárias do comunismo.

Entusiasmo norte-americano

Sobre a divisão de sua produção literária em duas fases, Jorge Amado concordava apenas em parte com a visão de que Gabriela pertencia a uma nova etapa. Certa vez, numa das entrevistas que concedeu a Alice Raillard, tradutora de inúmeros livros seus para o francês, lembrou que o prefácio da edição cubana de Gabriela ironizava as críticas dos militantes comunistas brasileiros, que consideravam o romance o fim de tudo: “Segundo esse prefácio, meu livro era marxista, onde a sociedade era analisada com lucidez e rigor perfeitos”.

Para Amado, Gabriela pertencia a uma nova etapa literária porque era uma história de amor, e não porque havia abandonado a abordagem política. Também não concordava com que esse discurso fosse a única tônica de sua produção anterior: “Ele (o discurso político) está ausente em Terras do sem fim (1943), aparece muito pouco em São Jorge de Ilhéus (1944), e se encontra somente no epílogo de Seara vermelha (1946)”, defendia-se o escritor.

Mesmo que Jorge Amado não tenha deixado de lado o contexto social e a crítica à realidade brasileira, o antropólogo Roberto da Matta, em seu livro A casa e a rua, considera que o escritor baiano abandonou, em Gabriela, a visão do intelectual de esquerda que tinha resposta para todos os dilemas a partir de fórmulas feitas. Considera, ainda, que Amado passou a apresentar, desde então, o gabriela_capa_euamundo como “uma complicada teia de relações pessoais que sustenta a esperança nas boas amizades” e como uma disputa muito mais real e complicada que a divisão esquerda/direita “entre os que estão embaixo e os que estão em cima”.

O fato é que, naqueles tempos de Guerra Fria, a recepção de Gabriela foi entusiástica por parte daqueles que estavam em posição oposta à Rússia. Em 1962, quando o livro foi lançado nos Estados Unidos, o jornal The New York Times registrava, em sua coluna de crítica literária, uma visão oposta à que foi apresentada no prefácio da edição cubana: “Gabriela representa, sem dúvida, a liberação do Sr. Amado de um longo período de compromisso ideológico com a ortodoxia comunista. (...) Está completamente convencido de que doutrinas rígidas extraídas da experiência russa são agora de pouco valor para o Brasil”.

Poucas semanas após a publicação da crítica, Gabriela entra para a lista dos best sellers do jornal e nela permanece por quase um ano. Era o esmorecimento da resistência do sistema literário norte-americano à obra de Jorge Amado.

Texto e imagens reproduzidos do site: multirio.rj.gov.br

Comunista, constituinte e exilado




Publicado originalmente no site MultiRio, em 19 Março 2012.

Comunista, constituinte e exilado.
Por Márcia Pimentel.

Foi em 1932, um ano após a publicação de seu primeiro livro, O país do carnaval, que Jorge Amado integrou-se à Juventude Comunista, setor do Partido Comunista Brasileiro (PCB) voltado ao movimento estudantil. Nessa época, ele dividia apartamento com o poeta Raul Bopp, em Ipanema, no Rio de Janeiro, para onde havia se mudado para estudar Direito.

O engajamento do jovem baiano não foi um ato isolado dentro do movimento literário. Nos anos 30 do século passado, vários escritores, artistas e intelectuais brasileiros já eram filiados ao partido – a exemplo de Rachel de Queiroz, a quem se atribui a aproximação de Amado ao PCB.  O “namoro” de artistas e intelectuais com o comunismo era, na verdade, um fenômeno mundial. A ameaça aos valores universais pelo nazifascismo impulsionava-os a colocar seu prestígio a serviço do debate político, contagiado pela utopia da sociedade sem classes da então recente Revolução Russa de 1917.

De acordo com o crítico francês Benoîte Denis, o contexto histórico daqueles tempos favoreceu a fascinação de grande parte do movimento artístico-literário pelas massas, sua cultura e movimentos de libertação. Tal fascínio se reverteu não apenas em temática de inúmeras obras, mas também na busca de construção de uma nova ética social. A postura de Amado não destoava desse quadro geral.

Prisões e exílios.

O engajamento político do baiano lhe rendeu muitas prisões, exílios e livros queimados. Acusado de subversão, foi preso pela primeira vez em 1936, logo após a Intentona Comunista organizada pela Aliança Nacional Libertadora (ANL), em novembro de 1935. Na época, Amado era redator de A Manhã, um dos principais veículos de divulgação da ANL, e integrava o corpo editorial da revista Movimento, do Centro de Cultura Moderna, que apoiava a entidade insurgente.

Com a onda repressiva deflagrada pelo Estado brasileiro após a tentativa de insurreição da ANL, Jorge Amado decide deixar o país. Faz uma longa viagem pela América Latina e pelos Estados Unidos durante 1937. Quando volta ao Brasil em novembro, ainda no desembarque, no porto de Belém, toma conhecimento do golpe de Getúlio Vargas e da decretação de sua prisão. Foge para Manaus, mas lá é preso novamente. Seus livros, considerados subversivos pelo novo governo, são queimados em praça pública, em Salvador. É solto no ano seguinte e em 1939, com a tortura de presos políticos e a desarticulação do PCB pelo Estado Novo, volta a intensificar sua atividade política.

Após sucessivas prisões e com a proibição do livro ABC de Castro Alves, publicado em capítulos pela revista Diretrizes, decide se autoexilar novamente. Mora no Uruguai, Argentina, França e União Soviética entre os anos de 1941 e 1943, e, quando retorna ao Brasil, tem nova prisão decretada. É solto após três meses, mas é obrigado a viver na Bahia. Em janeiro de 1945, participa, como chefe da delegação baiana, do I Congresso de Escritores, em São Paulo, onde passa a morar e onde conhece Zélia Gatai, com quem viria a viver até o fim de seus dias e com quem teria dois filhos (João Jorge e Paloma).

Com o fim da II Guerra Mundial, o desmantelamento do Estado Novo e a legalização do PCB, Jorge Amado é eleito, pelo estado de São Paulo, deputado à Assembléia Nacional Constituinte, em dezembro de 1945. É dele o projeto que garantiu a liberdade de culto e o fim da perseguição às manifestações religiosas afro-brasileiras. Além disso, defendeu com os demais constituintes comunistas vários outros pontos em favor das liberdades democráticas, como o direito de voto do analfabeto – que só viria a ser constitucionalmente reconhecido em 1988.

Radicalização e imortalidade.

Com a promulgação da Carta Constitucional em setembro de 1946, Amado passa a exercer o mandato de deputado ordinário como membro efetivo da Comissão de Educação e Cultura da Câmara dos Deputados. Mas o PCB é colocado de novo na ilegalidade e todos os parlamentares comunistas têm seu mandato cassado em janeiro de 1948. Amado parte para mais um exílio. Junto com a família, fixa residência em Paris, mas, por motivos políticos, o governo francês o expulsa do país em 1950. Vai para a então Tchecoslováquia e passa a viver no castelo da União dos Escritores.

Essa fase é marcada pela radicalização política de sua literatura. Em 1951, recebe o Prêmio Internacional Stalin de Literatura, em Moscou. Em 1954, publica a trilogia Os subterrâneos da liberdade, mas abandona a militância política no ano seguinte, com a divulgação dos crimes cometidos por Stalin pelos próprios soviéticos. Desde então, passa a dedicar-se somente à literatura. Em 6 de abril de 1961, depois  do estrondoso sucesso de Gabriela, cravo e canela, conquista a cadeira 23 da Academia Brasileira de Letras (ABL) e se torna imortal.  

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sexta-feira, 28 de abril de 2017

A vida e a obra do polêmico escritor Jorge Amado




Publicado originalmente no site Multi Rio, em 16 Março 2012.

A vida e a obra do polêmico escritor Jorge Amado
Por Márcia Pimentel

Popular, populista, agente do stalinismo, utópico, anarquista, roteirista oficioso de Roberto Marinho, sexista, talentoso, competente, desleixado com a Língua Portuguesa, sensível à condição humana, romântico, vítima do preconceito elitista, bem-amado, mal-amado. Estes são alguns dos adjetivos conferidos ao polêmico escritor baiano Jorge Amado, traduzido para 49 idiomas e publicado em 55 países. Por muito tempo, foi considerado como o único autor brasileiro a causar impacto no público e no círculo acadêmico internacional.

Nascido em Itabuna, em 10 de agosto de 1912, filho do fazendeiro de cacau João Amado de Faria e de Eulália Leal Amado, o escritor se insere no boom da literatura latino-americana, ocorrido após a Revolução Cubana, como um de seus expoentes, juntamente com Gabriel García Marques, Julio Cortázar e Mario Vargas Llosa, entre outros. Apesar de uma trajetória bem-sucedida – era o escritor brasileiro com o maior número de livros vendidos até a década de 1990, quando foi superado por Paulo Coelho –, Jorge Amado sempre se deparou com a resistência de boa parte da crítica.

O alinhamento de suas primeiras obras com o realismo socialista, estética oficial do governo soviético de Josef Stalin, e o desapego formal de sua escrita, que dava mais ênfase ao enredo do que à linguagem (segundo o próprio Amado), são alguns dos elementos utilizados contra o escritor. O fato de o sucesso ter sido facilitado pela ampla difusão de seus livros nas revistas e jornais dos partidos comunistas, em vários países do mundo, também integra o quadro de argumentos daqueles que depreciam a obra amadiana e minimizam sua importância para a literatura de Língua Portuguesa.

A presidente da Academia Brasileira de Letras (ABL), Ana Maria Machado, em seu artigo Jorge Amado: uma releitura, explica que a má vontade com a obra amadiana foi especialmente propagada por vários departamentos de Português nas universidades europeias, nos tempos em que o salazarismo ampliava suas raízes em Portugal. A resistência ao escritor baiano teria aumentado com a tradução de seu primeiro livro para o francês. A folha de rosto dizia se tratar de “uma tradução direto do brasileiro”, o que levou os literatos lusitanos a ironizar o fato de a Língua Portuguesa ter mudado de nome. O uso de palavrões e o registro da oralidade do brasileiro transformaram-se também em mais argumentos contra o escritor por parte dos defensores dos cânones da língua, que o acusavam de legitimar o linguajar chulo.

Acadêmicos e militantes do meio literário discordam, contudo, da visão que tenta rebaixar a obra do escritor baiano. Para o crítico José Castello, Jorge Amado foi o escritor cuja obra mais contribuiu para a construção da imagem do Brasil moderno como um país exuberante, com homens e mulheres que, a despeito da árdua luta pela sobrevivência, vivem para celebrar a vida. “Jorge Amado reinventou o Brasil. A partir dele, não podemos mais pensar em nosso país sem as cores e o sensualismo, a mestiçagem e o sincretismo, a fibra e a alegria que norteiam suas narrativas. (...) Se o Brasil tem um autor, ele se chama Jorge Amado”, diz o crítico em um de seus artigos publicados.

Do ponto de vista pessoal, não são poucos os que relatam que o baiano sempre foi afável, caloroso e sorridente, que não encarava a literatura como um exercício de nobreza intelectual, mas como uma espécie de prazerosa brincadeira de criança. Com seu jeito bonachão, sempre foi cercado de muitos amigos e admiradores dos mais diversos matizes ideológicos, entre eles Jean-Paul Sartre, Pablo Picasso, Pablo Neruda, Roger Bastide, José Sarney e Antônio Carlos Magalhães, entre outros. Sua convivência estreita, amorosa e respeitosa com a cultura popular também lhe garantiu amizades amado menininha_do_gantoiscom figuras memoráveis como Mestre Pastinha, o mais celebrado mestre de capoeira, e a mãe-de-santo Menininha do Gantois. A relação com o candomblé rendeu a Jorge Amado o título honorífico de Obá Arolu (uma espécie de “ministro” de Xangô) no Axé Opô Afonjá. O escritor Moacyr Scliar, que fazia parte de seu círculo de amizades, escreveu certa vez: “Jorge Amado era amável e generoso. Gostava de gente. A todos recebia com uma cordialidade admirável. E autêntica”.

Seja por mérito literário ou por sua rede de influências políticas e de amizades, há um certo consendo de que Jorge Amado foi o autor que mais impactou a formação de imagens sobre o Brasil durante o século XX. Seus livros, além de muito vendidos em dezenas de países, foram adaptados para o cinema, teatro, televisão e até mesmo balé e novelas radiofônicas. Por sua importância em nosso imaginário, o portal da MultiRio apresenta uma série especial de reportagens sobre a obra e a trajetória do polêmico escritor, que ocupou a Cadeira 23 da Academia Brasileira de Letras entre 1961 e 2001, quando faleceu. A militância no Partido Comunista Brasileiro (PCB), pelo qual foi eleito deputado constituinte em 1946, o posterior rompimento com o partido, as referências e as características estéticas, as diferentes visões sobre sua obra são algumas das questões abordadas.

Conheça as obras publicadas de Jorge Amado

O país do carnaval (1931)
Cacau (1933)
Suor (1934)
Jubiabá (1934)
Mar morto (1936)
Capitães da areia (1937)
ABC de Castro Alves (1941)
O cavaleiro da esperança (1942)
Terras do sem fim (1943)
São Jorge dos Ilhéus (1944)
Bahia de Todos os Santos (1944)
O amor do soldado (1944)
Seara vermelha (1946)
O mundo da paz (1951)
Os subterrâneos da liberdade (1954)
Gabriela, cravo e canela (1958)
A morte e a morte de Quincas Berro D’água (1961)
Os velhos marinheiros (1961)
Os pastores da noite (1964)
Dona Flor e seus dois maridos (1966)
Tenda dos milagres (1969)
Teresa Batista cansada de guerra (1972)
O Gato Malhado e a Andorinha Sinhá (1976)
Tieta do Agreste (1977)
Farda, fardão, camisola de dormir (1979)
O menino grapiúna (1981)
A bola e o goleiro (1984)
Tocaia Grande (1984)
O sumiço da santa: uma história de feitiçaria (1988)
Navegação de cabotagem (1992)
A descoberta da América pelos turcos (1992)
O milagre dos pássaros (1997).

Texto e imagens reproduzidos do site: multirio.rj.gov.br

quinta-feira, 27 de abril de 2017

Um livro marcado pelo estigma da incineração pública

 Imagem reproduzida do site: slideshare.net

Imagem reproduzida do blog: asylumtoreaders.wordpress.com
Fotos postadas por Papel da LEITURA, para ilustrar o presente artigo.

Leitura e Cidadania

Eduardo de Assis Duarte

Professor da Faculdade de Letras da UFMG,
doutor em Teoria da Literatura e Literatura Comparada pela USP e
autor de Jorge Amado: romance em tempo de utopia (Record, 2ª ed., 1996).

Colocada na ilegalidade,
resta à leitura aliar-se aos marginais.
Marisa Lajolo & Regina Zilberman.

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Ata de incineração: 

Aos dezenove dias do mês de novembro de 1937, em frente à Escola de Aprendizes Marinheiros, nesta cidade do Salvador e em presença dos senhores membros da comissão de buscas e apreensões de livros, nomeada por ofício número seis, da então Comissão Executora do Estado de Guerra, composta dos senhores capitão do Exército Luís Liguori Teixeira, segundo-tenente intendente naval Hélcio Auler e Carlos Leal de Sá Pereira, da Polícia do Estado, foram incinerados, por determinação verbal do sr. coronel Antônio Fernandes Dantas, comandante da Sexta Região Militar, os livros apreendidos e julgados como simpatizantes do credo comunista, a saber: 808 exemplares de Capitães da areia, 223 exemplares de Mar morto, 89 exemplares de Cacau, 93 exemplares de Suor, 267 exemplares de Jubiabá, 214 exemplares de País do carnaval, 15 exemplares de Doidinho, 26 exemplares de Pureza, 13 exemplares de Bangüê, 4 exemplares de Moleque Ricardo, 14 exemplares de Menino de Engenho, 23 exemplares de Educação para a democracia, 6 exemplares de Ídolos tombados, 2 exemplares de Idéias, homens e fatos, 25 exemplares de Dr. Geraldo, 4 exemplares de Nacional socialismo germano, 1 exemplar de Miséria através da polícia.

Tendo a referida ordem verbal sido transmitida a esta Comissão pelo sr. Capitão de Corveta Garcia D'Ávila Pires de Carvalho e Albuquerque e a incineração sido assistida pelo referido oficial, assim se declara para os devidos fins.

Os livros incinerados foram apreendidos nas livrarias Editora Baiana, Catilina e Souza e se achavam em perfeito estado.

Por nada mais haver, lavra-se o presente termo, que vai por todos os membros da Comissão assinado, e, por mim segundo tenente intendente naval Hélcio Auler, que, servindo de escrivão, datilografei. (assinados)

Luís Liguori Teixeira, Cap. Presidente
Hélcio Auler, Segundo-Tenente Int. N.
Carlos Leal de Souza Pereira

Transcrito do jornal Estado da Bahia, de 17-12-37

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Há pouco mais de 60 anos, surgia na literatura brasileira um livro marcado pelo estigma da incineração pública. Censurado e perseguido no momento de seu lançamento, Capitães da areia, de Jorge Amado, aparece às vésperas da decretação do Estado Novo, em 10 de novembro de 1937. Antes mesmo do golpe, o Brasil estava oficialmente em "Estado de Guerra", com a suspensão das liberdades, garantias e direitos dos cidadãos, a imprensa censurada e os cárceres abarrotados de presos políticos. Enquanto na Espanha artistas e escritores se solidarizavam com a República e pegavam em armas contra o fascismo, aqui, o integralismo de Plínio Salgado e uma mal disfarçada simpatia pelo nazismo entre as forças armadas forneciam o paradigma ideológico para que militares colocassem no fogo livros tidos por eles como subversivos.O gesto bárbaro perpetrado em Salvador apenas ecoa entre nós o ritual obscurantista que se repetia na Alemanha, na Itália e nos países que, logo depois, sucumbiriam à máquina de guerra comandada por Hitler.

Nunca em nossa história os intelectuais haviam se defrontado com o poder de forma tão cabal. É sintomática a colocação de Walter Benjamin, em texto desta época, referindo-se a uma situação que não era só européia: "a serviço de quem ficará o intelectual?" 1 Banida a neutralidade, restava-lhe o aconchego do poder ou o coro dos contrários. No Brasil, o esforço de cooptação do ministro Capanema e de toda uma rede de instituições que incluía o DIP - Departamento de Imprensa e Propaganda -, levou muitos deles para o projeto getulista de uma arte celebradora da Pátria, de Deus e da Família, além de inclinada à apropriação folclorizante de nossa diferença cultural.

Outros, todavia, vão para a trincheira oposta e buscam o caminho dos compagnons de route da utopia socialista. A literatura brasileira vê surgir a arte de denúncia, o "romance proletário", a "poesia social". Por seu caráter contestador e, mais que isto, por denunciar o conservadorismo da literatura que idealizava as relações de classe no país, tais textos logo experimentam a face truculenta do poder. É lapidar nesse sentido a frase de Graciliano Ramos em Memórias do cárcere: "começamos oprimidos pela gramática e terminamos às voltas com a Delegacia de Ordem Política e Social". A partir da experiência da ANL, em 1935, escritores, artistas, editores, jornalistas e intelectuais de oposição passam a alvo prioritário dos órgãos de segurança. A militância na Aliança Nacional Libertadora - tentativa de front populaire à brasileira - serviu para igualar a todos como comunistas, logo como ameaças sérias ao Estado.

No caso específico de Jorge Amado, os problemas começaram mais cedo: Cacau já havia experimentado em seu lançamento a mão pesada da censura. Liberado graças à intervenção de amigos, o romance vendeu, em 1933, nada menos que 2.000 exemplares em 40 dias. Estava aberto para o escritor o caminho da permanente empatia popular, em paralelo à contínua vigilância do aparelho repressivo. Autor de uma ficção tida como subversiva, Amado é preso, perseguido, exilado. É na cadeia que assiste à publicação de Mar morto, em 1936. Detido novamente em 6 de novembro de 1937, é informado na prisão da queima pública de seus livros, entre os quais o recém-lançado Capitães da areia, depois de proibidos de circular e meticulosamente recolhidos em escolas, bibliotecas e livrarias.2 Passados mais de 60 anos, choca-nos o fato de que a "Comissão de Busca e Apreensão de Livros", formada por um capitão, um tenente e um agente policial, tenha incinerado publicações "em perfeito estado" a partir de uma ordem passada oralmente pelo oficial superior... E, mesmo depois da fogueira, o romance dos pivetes de Salvador continuou no índex dos textos malditos para o Estado Novo. Alceu de Amoroso Lima dá conta de que, no ano seguinte ao da incineração dos 808 exemplares, a censura a Jorge Amado persistia. Ouçamo-lo:

Em 1938, quando meu saudoso amigo Henrique de Toledo Dodsworth me convidou para Reitor da Universidade do Distrito Federal, deu-me expressamente carta branca. Assim que tive oportunidade, como Reitor, de dar uma lista de livros para nossa biblioteca, incluí entre eles Capitães da areia, de Jorge Amado. Dodsworth me comunicou então que o Secretário de Educação, o nosso caro Paulo Assis Ribeiro, não admitia que comprássemos "livros comunistas".3

A repressão a Amado não era gratuita. Desde o começo da década, o autor vinha se notabilizando pela contestação em livros como Cacau, Suor, Jubiabá e Capitães da areia, em 1937. Os dois primeiros, referências explícitas ao mundo do trabalho; os dois últimos, à marginalide social urbana. Em todos eles temos o avesso da literatura "sorriso da sociedade" - expressão utilizada para definir a produção do tipo "água com açucar" que pontificara entre nós no período da Belle Époque. O romance amadiano volta-se para a base do edifício social e joga luz sobre suas margens e desvãos, para ali descobrir/construir o humano. O centro das narrativas é a representação do outro, seja de uma perspectiva de classe, de gênero ou de etnia. O que nelas se vê tensionado é o drama de seres a princípio incompletos, irrealizados enquanto cidadãos, mas que saem - ousam sair - para enfrentar a adversidade provinda de uma estrutura econômica, política e ideológica herdada do passado colonial. Mais que isto: seres que realizam nesse enfrentamento a sua formação como agentes sociais. Indivíduos como o Sergipano de Cacau, a Linda, de Suor, ou o Balduíno de Jubiabá: personagens cujos gestos e falas não apenas se inserem nas lutas históricas de seu tempo, mas que pretendem, mais que isto, propor uma pedagogia da indignação e do confronto, na linha do "herói positivo" da literatura socialista da época.

Trata-se, pois, de uma ficção entranhada com seu tempo, a configurar uma presença interessada e polêmica na cultura brasileira. O projeto que a sustenta é o de escrever para o leitor humilde, estudante ou trabalhador, e jovem, em sua grande maioria. Tal projeto provém diretamente do manancial utópico socialista que tão fortemente marcou a cultura e a literatura modernas na primeira metade do século. "Escrever para o povo" impunha-se aos intelectuais de esquerda como imperativo absoluto, correlato à necessidade de "falar às massas" que dominava os carbonários e mobilizava os companheiros de viagem da revolução. No caso específico de Amado, a missão de "intelectual orgânico", membro da "vanguarda do proletariado", não irá fechar seus olhos à presença da cultura burguesa, disseminada e hegemônica, por exemplo, no gosto popular pelas narrativas folhetinescas e pelas representações melodramáticas. O escritor percebe, ainda no início de sua carreira, a força dessa herança, sua influência no cinema da época e nas radionovelas da década seguinte. E rapidamente passa a incorporar tais procedimentos na construção do "romance proletário", com o fito de ganhar para a literatura os aficcionados dos novos meios de comunicação de massa.

Ao lado disso, o romance amadiano busca falar a história dos oprimidos: parte firme para a denúncia das mazelas do nascente capitalismo brasileiro, ao mesmo tempo que pratica a elevação dignificadora dos seres subalternizados pela exploração econômica e reduzidos a pouco mais do que bichos (selvagens ou domésticos), pelos preconceitos de classe ou de cor. Pela primeira vez em nossa literatura temos um negro - Antônio Balduíno, de Jubiabá - tratado como herói em todas as etapas de sua formação, da infância lúmpem de órfão e moleque de morro e de rua, à maturidade do cidadão que adquire a duras penas a consciência do antagonismo entre as classes.

A mesma postura é retomada em Capitães da areia. O romance dos meninos de rua recupera o ímpeto romanesco e heroificador dos humildes adotado desde Cacau. Os pequenos bandidos chefiados por Pedro Bala surgem acima de tudo como vítimas de uma sociedade opressora e hipócrita. A violência que praticam é inscrita no texto quase sempre como justa e, mesmo, necessária - uma resposta à violência econômica sofrida pelos de baixo e transformada em agressão sádica quando praticada pelo aparelho repressivo. O romance toma o partido dos, já àquela altura, considerados menores, mas para fazê-los maiores. Eles se engrandecem no drama do Sem Pernas, que prefere o suicídio ao reformatório; no arrependimento culpado de Pedro Bala, quando se coloca no lugar de sua vítima; e, como não poderia deixar de ser, no momento em que o grupo retifica sua prática e avança rumo às lutas sindicais e políticas.

A idealização romanesca compõe o retrato modelar do oprimido, o "romance proletário" empresta-lhe uma consciência para impulsioná-lo em sua afirmação como indivíduo. O vôo da morte de Sem Pernas, que pula das alturas da cidade rica rumo à cidade baixa, marca o momento agônico do pathos na trajetória do grupo, romanesca descida aos infernos, preparatória à elevação e reconhecimento definitivos dos personagens. Algo semelhante ocorre com Pedro Bala em sua fuga da prisão e no mergulho no oceano acompanhando o cadáver da amada. Com isto, transforma-se também a ação do romance. A recorrência ao substrato mítico - morte e renascimento do herói - emoldura a leitura amadiana da utopia socialista. Mais tarde, a delinqüência infantil cede lugar ao engajamento proletário. Os garotos crescem. Mais que isto, são impulsionados do mundo da sobrevivência individual para a rebeldia de uma classe que se levanta. Não será ainda a revolução, mas o salto sonhado por Jorge Amado naqueles idos de 37.

Voltando à ata da fogueira, vê-se que ela revela uma verdade estatística e impõe a pergunta: por que Jorge Amado? Por não os também comunistas Graciliano Ramos e Rachel de Queiroz? A resposta está na simples constatação dos números: para 4 volumes de Moleque Ricardo foram queimados 267 exemplares de Jubiabá, publicado no mesmo ano; ou ainda, para 26 de Pureza, incineraram-se 808 de Capitães da areia ou 223 de Mar morto. A propósito deste último, cabe a indagação: o que pode haver de subversivo ou de comunista na história de Guma e Lívia? A ata deixa visível o reconhecimento do poder de sedução e da força comunicadora da narrativa amadiana, da mesma forma que atesta o volume de sua receptividade junto ao público.

Essa força vem justamente do aludido projeto de construir uma literatura política no sentido mais imediato que a expressão pode ter. Por seu caráter didático e insurrecional, esse projeto só vislumbrava a própria viabilidade à medida que pudesse congregar uma massa ledora cada vez maior. É então que propicia a junção entre a leitura da utopia - ou seja, a compreensão brasileira e amadiana do processo histórico e, mais especificamente, da "revolução mundial" - e o que podemos chamar de utopia da leitura - a crença de que para haver cidadãos conscientes nas camadas subalternas, era necessário, em primeiro lugar, haver leitores. Assim, a ficção do companheiro de viagem da aventura socialista deixava-se penetrar pelas imagens da miséria e da injustiça, movida pela crença de que, ao representá-las, dava um passo decisivo para a sua superação. A utopia da leitura faz com que Amado traga o povo para o centro do romance como forma de ganhá-lo como leitor. O passo seguinte consiste em fazer do texto um paradigma de inconformismo, uma espécie de escola de cidadania, tal como entendida pelo autor e por seus companheiros de partido.

É nessa perspectiva que se pode apreender o personagem João José. O papel de edificar consciências faz do menino alfabetizado o guardião e senhor do momento mágico de escutar e aprender. Mais que isto, faz do pequeno "professor" alguém que quer construir um mundo novo a partir do gesto de ler e narrar:

João José, o Professor, desde o dia em que furtara um livro de histórias numa estante de uma casa da barra, se tornara perito nesses furtos. Nunca, porém, vendia os livros, que ia empilhando no fundo do trapiche, sob tijolos, para que os ratos não os roessem. Lia-os todos numa ânsia que era quase febre. Gostava de saber coisas e era ele quem, muitas noites, contava aos outros histórias de aventureiros, de homens do mar, de personagens heróicos e lendários. (...) João José era o único que lia corretamente entre eles e, no entanto, só estivera na escola um ano e meio. Mas o treino diário da leitura despertara completamente sua imaginação e talvez fosse ele o único que tivesse uma certa consciência do heróico de suas vidas. 4

O pivete-professor figura como síntese da utopia da leitura. Com ele, ler e narrar tornam-se atitudes políticas. Os volumes roubados e empilhados entre tijolos metaforizam a construção da consciência e do edifício da cidadania entre os pobres. O livro é retratado como portador da verdade e peça principal dessa construção, que, ao contrário da simples pregação retórica - de que são exemplo as falas do padre José Pedro - surge aprimorada pelo encanto do texto ficcional, a despertar o olhar crítico pela via do imaginário. Nesse momento, o menino alfabetizado torna-se "O Professor". Ele abre o livro e lê histórias para os companheiros ainda analfabetos, repetindo, aliás, o gesto presente em Suor e, mais tarde, retomado outra vez em Subterrâneos da liberdade. Da leitura da utopia à utopia da leitura, prevaleceram o encanto da escrita e o empenho político de dar ao personagem que lê o poder formador e demiúrgico dos narradores:

Apelidaram-no de Professor porque num livro furtado ele aprendera a fazer mágicas com lenços e níqueis e também porque, contando aquelas histórias que lia e muitas que inventava, fazia a grande e misteriosa mágica de os transportar para mundos diversos, fazia com que os olhos vivos dos Capitães da Areia brilhassem como só brilham as estrelas da noite da Bahia. (p. 37-8)

Amado confere aos menores aquela dignidade que os faz maiores: lêem, ouvem, aprendem. No enlevo se elevam, tornam-se crianças e jovens como quaisquer outros melhor dispostos na escala social. O trecho citado, além da declaração de amor ao poder e à magia da palavra, aponta para a crença quase mítica na força revolucionária que esta possui, capaz de transformar menores abandonados em cidadãos conscientes. Essa crença fundamenta o projeto do "romance proletário" e explica toda a literatura social de Jorge Amado.

Nesse momento de revisão crítica das utopias da modernidade, pode-se afirmar que o projeto amadiano, se não operou o milagre da "conscientização das massas", impulsionou vivamente a formação de um público para a literatura brasileira. A utopia da leitura direcionou seus escritos para o universo do receptor humilde, estudante ou trabalhador. Se é certo que não falou todo o tempo "para as massas", é certo também que, ao contribuir para a formação do hábito de leitura, o encanto singelo de suas narrativas foi alargando sempre mais o horizonte de recepção de seus textos e de tantos outros escritores brasileiros. Diante da história contada, brilham os olhos dos meninos de rua. Brilham também os de Amado, no canto romanesco - misto de crença e hino - de louvor à narrativa e ao dom de narrar. Essa voz que narra, muitas vezes longínqua e ancestral, transforma o leitor em autor, vai da escuta ao ato demiúrgico, sementeira de novos narradores.

Lembro-me de ter tomado contato com a história dos Capitães nos anos 60, logo após o golpe militar. E nunca pude esquecer essa mão estendida aos de baixo, como quem diz: "venham, aqui vocês são gente de verdade!" Leitura e cidadania: na juventude vigiada daqueles tempos não podia vislumbrar todo o sentido dessa aproximação, embora encantado com a ousadia de um escritor que colocava os filhos das margens como centro da história.

Apesar da elevação e, mesmo, da heroificação - próprias ao modo romanesco - com que trabalha a representação dos pequenos bandidos, o texto amadiano não deixa de tratá-los como problema. Os meninos crescem, mas o problema do qual fazem parte persiste. A desigualdade que gera os menores infratores é a mesma que produz o cangaceiro (Volta Seca) e o marginal urbano (Gato); é a mesma que propicia o surgimento do artista engajado (Professor) e do ativista político (Pedro Bala). Ao final, os meninos tomam corpo de adultos, mas continua a tensão que os opõe ao mundo e que exige deles novas armas. Amado faz da desigualdade não apenas o núcleo, a enervação central do romance. Ao mimetizá-la, quer falar a história do outro, a história a contrapelo, centrada nas vozes subalternizadas. E, ao trazer essas vozes para o centro do projeto socialista que embala seus primeiros escritos, quer construir, pela via literária, a solução. Apontando aos marginais o caminho da luta de classes, em pleno alvorecer do Estado Novo, Jorge Amado ostentava, provocativamente, o lado subversivo da utopia.

A repressão não conseguiu interromper o caminho dessa história de marginais. Sessenta anos depois, a ousadia de Capitães da areia permanece jovem e viva nesse país de Candelárias e Carandirus. O livro dos pivetes baianos é, atualmente, um dos romances mais lidos da literatura brasileira e a ficção amadiana está presente na leitura de amplos segmentos sociais, sobretudo entre os jovens, que abraçam seus livros com a avidez de quem procura no prazer do texto o conhecimento do país.

Quanto a fogueiras e menores abandonados, a triste conclusão é que continuam a fazer parte da história-pátria. Os meninos passaram de "dominados" a "excluídos", apesar de freqüentarem cada vez mais espaços públicos. Já as fogueiras, também elas persistem. No alvorecer do milênio, desinteressaram-se aparentemente dos livros. Voltam-se agora para índios, mendigos e homossexuais.

Texto reproduzido do site: unicamp.br